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Estratégia no Digital: saber o que não queremos e o que não somos

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Há dias, dei por mim no final de uma semana com várias reuniões de trabalho, com empreendedores e líderes empresariais, a pensar que há muitas empresas que não são claras na sua estratégia, porque não sabem bem o que não são!

E esta conclusão deve-se às respostas obtidas a duas perguntas típicas, e muito simples, que gosto de fazer a quem lidera projetos empresariais, sejam projetos startup, sejam empresas já com alguma estrutura.

As perguntas simples são: “O que é que vocês fazem? E o que vos distingue de outros nesse mercado?”.

As respostas que mais chocam são, quanto à primeira questão, “Fazemos tudo! E agora até estamos no digital! Fizemos a nossa transformação digital” e “Não sei”, quanto à segunda.

Pior ainda é, quando perante duas perguntas, cujas respostas deveriam ser curtas e diretas, passado 5 minutos ainda estão a tentar explicar que o produto ou o serviço faz “o pino, a cambalhota ou o mortal a trás com pirueta à retaguarda”, com a esperança de me convencer que têm a melhor empresa e o melhor produto ou serviço do mundo.

O meu primeiro pensamento, nestas situações, é de um ensinamento que a minha avó sempre me disse: “se queres fazer tudo, na realidade não vais fazer nada”. E a realidade é que a analiso várias dessas empresas e percebo que de facto não fazem nada.

O meu segundo pensamento, quando ouço que não sabem o que as distingue de outras no mercado é: “mas então por que é que estás aqui a querer vender-me uma coisa que se calhar já tenho?”.

A isto tudo, acresce a cereja em cima do bolo, quando num último suspiro de liderança inovadora dizem “fazemos um ecossistema digital, com inteligência artificial, para dar dados com valor para o negócio”. E é aí que pergunto: “Então o que é que não fazem?”

E, normalmente, essa questão costuma ser um drama para quem a ouve. As pessoas ficam desconfortáveis, pois não esperavam passar pelo incómodo de ficar sem resposta, uma vez que normalmente nunca se fizeram essa questão.

Definir qualquer estratégia empresarial ou estratégia digital, ou mesmo estratégia pessoal, implica, em primeiro lugar, ter uma visão e tal permite-nos identificar um rumo e um caminho, definindo fronteiras para garantir que não passamos essas fronteiras, isto é, ser claro o que a empresa não será certamente.

E estar no Digital, onde a concorrência é ainda maior, pois no mundo digital não existem fronteiras físicas de países, razão pela qual que para nos distinguirmos precisamos de ter ainda mais evidente o que não somos.

Em jeito de conclusão, seguindo estas pequenas regras, garantiremos com clareza a diferenciação da concorrência e, por isso mesmo, mais facilmente se consegue explicitar as vantagens competitivas de se estar no mercado e o valor acrescentado a dar aos clientes.

Rui Ribeiro

Com mais de 20 anos de experiência profissional é atualmente Diretor Geral da IPTelecom, tendo anteriormente sido Diretor Comercial e Desenvolvimento de Negócio da Infraestruturas de Portugal S.A., Diretor de Sistemas de Informação na EP – Estradas de Portugal S.A. e Professional Services Manager da Sybase Inc. em Portugal. A nível universitário é Diretor Executivo da LISS – Lusofona Information Systems School, Diretor da ESCAD – Escola Superior de Ciências de Administração do IP Luso, Diretor da licenciatura em Informática de Gestão da ULHT e Docente da ULHT. Licenciado em Engenharia Informática pelo IST, MBA na Universidade Católica Portuguesa e DBA – Doctor in Business Administration no ISCTE/IUL com a Tese “Business Models for Open Source Software Vendors”.

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