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Empreendedorismo e feminismo: contextos e soluções

Empreender sempre foi um grande desafio para mulheres em todo o mundo. Apesar de cada vez mais as universidades serem maioritariamente ocupadas por pessoas do sexo feminino, que buscam também em palestras, cursos e networking uma maior capacitação empresarial e de gestão sobre negócios, há ainda um longo caminho a ser percorrido em termos de equidade salarial e de condições de trabalho. A pandemia do covid-19 ampliou as dificuldades de uma mulher gerenciar sua vida pessoal e profissional após a migração do trabalho para ambiente digital. A sobrecarga de tarefas saltou e tornou-se ainda mais evidente, mesmo para aquelas que trabalham em tecnologia.

Segundo o estudo “Coronavirus Pandemic – Impact on Gender Equality”, realizado pela European Comission, na União Europeia as mulheres representam 76% dos trabalhadores da saúde, cerca de 90% das outras profissões de cuidado (assistência a crianças, assistência a idosos) e 95% das empregadas de limpeza e auxiliares domésticas. Eles estão na linha de frente e, portanto, mais expostos ao COVID-19. As mulheres têm mais probabilidade do que os homens de serem empregadas não assalariadas, autônomas ou em empregos de meio período e precários e, portanto, são mais vulneráveis à perda de empregos como consequência económica da pandemia. A emergência do COVID-19 e a aceleração da transição para economias digitais poderá tornar-se uma fonte ainda maior de desigualdade económica.

De acordo com o estudo realizado em 54 países “2019–2020 Global Entrepreneurship Monitor (GEM)” as mulheres que estão começando um negócio acreditam terem maior probabilidade de fazer a diferença no mundo. Em mais de 30 economias pesquisadas, verificou-se que a maioria das entrevistadas do sexo feminino também eram mais propensas do que os homens a concordar que ganhar a vida com um empreendimento é positivo e uma motivação importante porque os empregos são escassos.

A vocação empreendedora feminina é atestada em um estudo do Boston Consulting Group de 2018: mulheres empresárias geram mais receita do que os homens, apesar de receberem menos apoio financeiro. O estudo revelou que para cada U$ 1 de investimento levantado, as startups de mulheres geraram U$ 0,78 em receita, enquanto as startups geridas por homens geraram apenas U$ 0,31.

No Brasil, o estudo “As empreendedoras e o Coronavírus – os negócios femininos no Brasil em meio à pandemia”, realizado pela Rede Mulher Empreendedora e Instituto Locomotiva, mostrou que para 84% das entrevistadas, tentar reduzir os gastos da empresa/empreendedorismo foi a medida mais aplicada; 66% buscavam trabalhar com divulgação online, enquanto 53% já realizavam vendas em ambiente virtual; e 53% não possuíam nenhuma reserva financeira para seus negócios.

Após debruçar sobre estas e outras pesquisas sobre empreendedorismo feminino e a relação com a pandemia, sobretudo no mercado de trabalho tecnológico, pude absorver parte desta angústia. Nos últimos dois anos, como parte da pesquisa de minha tese doutoral, entrevistei dezenas de role model femininos e participei de ao menos 50 eventos de tecnologia e mulheres em tecnologia em Portugal, Estados Unidos e Brasil, antes e depois do surgimento do covid-19. Decidi juntar uma compilação de reflexões minhas como mentora e de outras pesquisadoras científicas e empreendedoras para contribuir com soluções neste contexto atual ainda nebuloso económico:

• Para empreender e liderar: mantenha o foco e saiba para qual direção seu negócio está indo. Tenha clara a missão, objetivos e visão para os próximos anos alinhada a uma estratégia de implementação clara de uma cultura corporativa saudável. Reforce as motivações positivas de seu negócio junto aos times e stakeholders, seja parceiro do seu cliente e proporcione aos colaboradores e clientes um senso de colaboração mútua em cases de sucesso.

• Matenha a motivação e paixão, zele pelo propósito que motivou a criação e a existência do negócio. Cuide das pessoas da sua empresa mais do que nunca.
• A comunicação efetiva, planejada e bem executada, ainda é o diferencial para o exercício de liderança, mais do que administrar o negócio. Seu trabalho e empreendimento não são sobre você, mas sobre ajudar pessoas a terem mais qualidade de vida e sucesso.

• Inspire confiança: fale a verdade sobre a situação da empresa, tente fazer com quem todos da companhia se conheçam e relacionem. Faça do exercício de ouvir um hábito maior do que falar. Cumpra as promessas, lidere sendo exemplo, dê retorno, seja justo e sempre recompense aqueles que se dedicaram com afinco.

• Busque desenvolver ainda mais sua inteligência emocional, estamos todos muito sensíveis às contingências da pandemia. Para isto, busque atitudes de empatia e padrões éticos, de conscientização social e ambiental, flexibilidade de adaptação a contextos imprevistos e árduos da economia, política e sociedade.

Renata Frade

Renata Frade é Doutoranda na Universidade de Aveiro, com tese inédita e inovadora sobre feminismo tecnológico em Portugal e no Brasil. Pesquisadora, consultora e professora de transmedia desde 2008 (com especialização no M.I.T). Estudou Novas Mídias na Stanford Graduate School of Business. Palestrante, professora e produtora de conteúdos sobre tecnologia desde 2015 (keynote speaker em simpósio internacional da Gartner, Girls in Tech Brasil, ThoughtWorks, professora da Universidade Anhembi Morumbi etc). Estudante de storytelling e empreendedorismo no Nasdaq Entrepreneurial Center (San Francisco). Empreendedora tecnológica por 10 anos como co-fundadora da Punch!. Consultora e pesquisadora de etnografia digital e design de interação (UX) desde 2019. Produtora de conteúdo e desenvolvedora de campanhas e ações em múltiplas plataformas (Web Summit 2018 e 2019 para Mobile Time, Sanofi, Actelion, Fresenius etc.).

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