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A era digital revolucionou o mercado laboral

O confinamento provocado pela pandemia do Coronavírus alterou muitos hábitos por todo o globo.

Como medida de precaução, muitos foram os países que implementaram o confinamento como uma das medidas para conter o efeito desta crise pandémica. Assim, novos hábitos instalaram-se na rotina diária de todos os cidadãos, como passar mais tempo em casa e menos ou praticamente nenhum no local de trabalho.

Estes novos hábitos geram, por sua vez, novas tendências de mercado que já estão a ser observadas pelas consultoras de recursos humanos e pelo setor imobiliário.

A meu ver, o teletrabalho veio para ficar, principalmente, para as empresas de cariz digital e que não necessitam de um apoio ao cliente de forma presencial. Para muitos adeptos do teletrabalho, é possível conciliar a família com o trabalho e com a respetiva produtividade. Além disso, não é necessário passar horas e horas no trânsito, fazendo com que se poupe realmente tempo. Porém, há que reconhecer que a experiência atual, embora seja positiva, é bastante diferente para muitos trabalhadores.

Um estudo da consultora de recrutamento Robert Walters realizado a 5500 pessoas revelou que, em Portugal, 44% dos profissionais consideram que a sua produtividade aumentou a trabalhar em casa e 96% pretendem continuar a ter a opção de teletrabalho após o confinamento.


Como é que o trabalho se vai organizar após a pandemia?

De acordo com o mais recente estudo apresentado pela consultora JLL em Portugal, 95% dos profissionais portugueses revelaram a intenção de continuar a trabalhar em casa, pelo menos um dia por semana, sendo que 84% responderam desta forma por razões profissionais, pois consideram que desta forma são mais produtivos.

Seguramente que haverá uma transformação no mercado de trabalho, na medida em que há uma perceção bastante positiva em relação ao teletrabalho por parte do trabalhador.

Contudo, tenho a plena consciência que algumas lideranças não estão tão capazes de prescindir dos seus poderes, na medida em que muitas empresas tiveram de se adaptar à força, vendo o teletrabalho como a sua última forma de dar continuidade ao seu próprio negócio. Muitas empresas adaptaram-se a esta nova realidade em poucas semanas, utilizando os recursos e as tecnologias que já tinham, sendo a transformação digital um elemento chave nesta mudança.

Claro está, as pessoas continuarão a querer voltar ao seu local de trabalho, até para manter uma relação mais próxima com os seus colegas e pares, mas acredito que isso já não se faça durante uma semana inteira. Ou seja, um ou dois dias em teletrabalho é algo perfeitamente gerível e integrável numa cultura empresarial e de gestão de equipas.

Na verdade, tem que haver um ponto de equilíbrio. Manter o trabalho no escritório para que os laços não se percam, mas também utilizar o teletrabalho de uma forma regular e no mínimo pontual.

Por outro lado, os espaços de trabalho não vão deixar de existir, mas sofrerão algumas alterações, pois estarão mais virados para a socialização. Há multinacionais instaladas em Portugal em que um trabalho já não tem a sua própria secretária. Não há, portanto, uma secretária atribuída, nem personalizada. Um colaborador senta-se numa que estiver livre. Isto leva a que as pessoas possam colaborar, trocar ideias e inovar o mais possível, elevando a cultura de colaboração.

Exemplos de diferentes perceções mundiais de teletrabalho

A Automattic, dona da plataforma WordPress e de outras aplicações web, opera atualmente na sua totalidade em teletrabalho. Os seus colaboradores provenientes de vários países, trazem à empresa a vantagem competitiva de saberem comunicar em 93 idiomas diferentes. A empresa incentivou sempre o trabalho à distância, sendo que a presença no escritórios era opcional, até que em 2017, decidiu fechar o escritório físico pela fraca frequência da parte dos seus colaboradores.

Em 2013, a Yahoo proibiu o trabalho a partir de casa. A decisão, na altura muito criticada, foi sustentada pela falta de interação entre os colaboradores que raramente marcavam presença no escritório e que afetava a colaboração entre as equipas.

A Google, que nunca proibiu o trabalho a partir de casa, tem uma baixa adesão ao teletrabalho da parte dos seus colaboradores. A situação explica-se pelo investimento na criação de condições de bem-estar que a empresa oferece refeições gratuitas, serviços médicos, de cabeleireiro e de lavandaria “on-site” e locais apropriados para exercício físico e sestas. A estratégia é criar um local de trabalho tão confortável que os funcionários não vão querer sair, explicando a rápida associação entre trabalhadores felizes e o retorno do próprio investimento.

É preciso também referir que o teletrabalho veio agravar a dificuldade que algumas pessoas já sentiam em conseguir desligar-se do trabalho. Note-se que há problemas de adição tecnológica por parte de muitos recursos humanos. O papel das chefias na organização do trabalho e no direito ao descanso dos colaboradores é deveras extremamente importante, pois deve-se evitar responder a e-mails fora do horário de trabalho. Curiosamente desde Abril de 2014 que em França há um acordo que reconhece o direito do trabalhador a ficar offline. Por cá, todos os trabalhadores em regime de teletrabalho têm direito aos tempos de descanso e repouso. Em contrapartida, pode controlar a atividade ou os instrumentos de trabalho do empregado, por exemplo, com uma visita à residência, entre as 9 horas e as 19 horas.

Portugal apresenta condições únicas para o teletrabalho e para o digital

Nos próximos anos poderá ser uma oportunidade para Portugal. Portugal é um país que reúne condições únicas para os profissionais estrangeiros que consigam estar em teletrabalho. De acordo com Employer Brand Research da Randstad, a localização (65%), a diversidade e inclusão (44%), os produtos e serviços de referência (39%) são as principais características que permitem reconhecer Portugal como um destino profissional atrativo.

Segundo o Eurostat, só cerca de 5% dos trabalhadores europeus trabalhavam habitualmente à distância, antes da crise pandémica. Portugal está acima da média europeia, ficando no 11º lugar longe da Holanda, Finlândia e Luxemburgo.

Neste contexto, o bom enquadramento do teletrabalho poderá ser um ótimo aliado na luta contra a crise climática, na medida em que é sinónimo de sustentabilidade ambiental e social. Incrementa-se a diminuição de emissões de CO2 com a redução das deslocações. Um ganho em tempo para os profissionais combinado com a redução de custos para as empresas. Por outro lado, poderão existir novas dinâmicas sociais geradas pela maior proximidade das pessoas com a sua área de residência, aumentando o comércio de bairro. A diminuição do stress pode ainda significar ganhos para a saúde.

André Teixeira

com uma vasta experiência em Marketing e Relações Públicas, já passou por várias empresas, nomeadamente, pela Iberomoldes, CTT e Janz. Com uma licenciatura em Relações Públicas e Comunicação Empresarial e uma pós-graduação em Marketing e Comunicação Publicitária pela Escola Superior de Comunicação Social, atualmente é o gestor comercial do Digitalks em Portugal.

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